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Já fui à final da Champions.

por Manuel Reis, em 23.05.14

 

O futebol feminino é muito bom.

 

Primeiro, porque junta duas das minhas coisas preferidas: Mulheres e futebol. Especialmente quando elas andam à luta (não é tão frequente como no futebol masculino, infelizmente). Mas saindo do ponto de vista machista: Sim, é mais lento, um pouco mais atabalhoado (embora isso possa aumentar a emoção), mas tem mais tempo útil de jogo - logo a partir do momento em que as raparigas não simulam lesões, já se ganham uns quantos minutos.

 

Escrevo isto porque fui ver a final da UEFA Women's Champions League ou, como foi promovida em Portugal, a 1ª parte do concerto do Anselmo Ralph no Estádio do Restelo. Mas já lá vamos.

 

Sobre o jogo, algumas coisas a dizer. Uma primeira parte em que o Tyresö arrancou com tudo e foi muito atacante nos primeiros 15 minutos. As alemãs do Wolfsburgo (campeãs em título) foram subindo, e subindo, e conseguiram não só anular os ataques das suecas, como também criar algumas oportunidades de perigo. Mas o primeiro golo foi sueco, com sotaque brasileiro. Só podia ser a jogadora que desde 2004 se encontra no top-3 mundial, encabeçando o pódio de Jogadora do Ano por 5 vezes (entre 2006 e 2010): Marta. A suspeita do costume a abrir o marcador. Ainda estava eu a tweetar sobre este golo e as suecas marcam outra vez, com a galega Veronica Boquete a marcar. 2-0. A partir daí, tudo mudou. O Tyresö nunca mais insistiu em jogar e o Wolfsburgo foi pressionando e pressionando.

 

Na segunda parte, já não se via Tyresö a não ser nas bancadas. Em menos de 10 minutos, o Wolfsburgo empata. Golos de Alexandra Popp e Martina Müller penalizavam um Tyresö perdulário que precisou dos golos para acordar. Mais uma vez, Marta (com um golaço) a colocar de novo o Tyresö em vantagem, para depois voltarem a encostarem-se à sombra da bananeira. Aos 68 minutos, Verena Faisst empata para as alemãs, para Müller, a 10 minutos do fim, marcar o golo que deu a vitória ao Wolfsburgo. O Tyresö ainda acordou (outra vez), mas foi tarde demais (outra vez). Platini entregou a taça às bi-campeãs (seguidas!) da Europa.

 

Todos os artifícios que seriam de esperar da UEFA estavam lá. Todos os cartazes, branding, cores, coreografia de apresentação, etc. A UEFA não poupa esforços para tentar dar destaque à final da Liga dos Campeões Feminina. No meio disto tudo, consegui ter alguma sensação de "sexo menos frequente em jogos de futebol" quando, à entrada, e rodeado de mulheres, sou puxado por um segurança para ser revistado à parte. Tal como acontece às mulheres quando vão a jogos de futebol.

 

Isto foi o lado positivo. Bom jogo, boas condições, (algum) esforço da instituição que criou a competição.

 

Agora, que fique bem claro: Não tenho nada contra o Anselmo Ralph (bem pelo contrário), mas esta iniciativa da organização de incluir um concerto foi a coisa mais parva de que há memória e a constatação - até pela FPF - de que em Portugal não existe uma cultura futebolística (muito menos desportiva). É que fico triste, mas digo isto à vontade: Eram poucos os que estavam lá para ver o jogo. Eu já tinha decidido ir ver o jogo antes de anunciarem esta treta do concerto. Pior: A falta de respeito do "público" por quem REALMENTE estava a ver o jogo. Aos 87 minutos da partida cria-se uma debandada de gente das bancadas do Restelo, com pessoas (crianças, pré-adolescentes, adolescentes) a passar por cima de filas de cadeiras. Não, não houve nenhuma tragédia, não caiu nenhuma bancada. Queriam era ir para ao pé dos portões para irem o mais rapidamente possível para o recinto. Não, também não era nenhuma invasão de campo de adeptas do Wolfsburgo: Queriam era ver o Anselmo Ralph o mais perto possível do palco.

 

Não percebo a estratégia da FPF que, desde que Mónica Jorge é vice-presidente para o futebol feminino, tem feito um bom trabalho na promoção do desporto. "De repente", temos selecções júniores e juvenis. E numa situação em que podia ter sido mais um passo para chamar a atenção dos portugueses para o futebol jogado (e bem) por mulheres, especialmente numa altura em que a primeira treinadora de um clube profissional masculino em todo o mundo é portuguesa (Helena Costa, no Clermont Foot), trivializa-se todo este esforço criando uma estratégia que, a meu ver, falhou por completo. Quando estava a ir para o Restelo, não ouvia pessoas a dizer que iam ver um jogo, bem pelo contrário - dizia-se que o trânsito estava cortado porque ia haver um concerto. Não, não era uma final de uma competição europeia, era um concerto.

 

E não me venham com a treta de que era para vender mais bilhetes: No final, e enquanto os adeptos estavam a sair do estádio, vi o espaço em frente ao portão de saída CHEIO de pessoas (crianças, pré-adolescentes, adolescentes) à espera que lhes dessem autorização de entrada no estádio. Afinal, e no meio disto tudo, o concerto era gratuito. Pelo menos foi isso que me foi dado a entender.

 

Outro pormenor negativo: Os adeptos. Lembram-se de referir que a cultura futebolística é inexistente em Portugal? Dou-vos um exemplo. Eu sou de Aveiro. Logo, devia ser adepto do Beira-Mar. Mas sou adepto do Sporting. Isto pode-vos parecer perfeitamente natural. Uns são do Sporting, outros são do Benfica, outros são do Porto e o resto é paisagem. Pior: Os antis. Odeio os antis. Os antis são uma espécie de supostos adeptos que preferem as derrotas dos rivais às vitórias das suas equipas. O adepto português, de uma forma geral, não sabe (ou não quer) apreciar um jogo de futebol entre duas equipas que não conhece. Não quer perceber o jogo. Torce por uma equipa "porque veste de verde". Eu, sendo do Sporting, não tenho problemas nenhuns em dizer que gosto de ver jogos do Benfica. Se jogam bem não há problema em assumir. Mas já estou a dispersar e este assunto dá pano para mangas.

 

Continuando: Assim que o jogo começa, três pacóvios ao meu lado começam a gritar "SPOOOOOOORTING!",  "PA-TRÍ-CI-O!", etc. E a insultar. E a dar sugestões de jogo. "Domina com as mamas!", diziam eles. Responde uma mulher, uma fila abaixo e num volume de voz não muito elevado: "Vai lá para dentro fazer melhor!" Eles foram-se calando. No final já nem se ouviam (provavelmente já estavam na fila do Anselmo Ralph). Noutro ponto da bancada, mesmo lá em cima, ouvia-se "E quem não bate palmas é tripeiro". Pergunto-me: Numa final europeia, em que nenhuma das equipas é da casa e nenhuma das equipas é o Porto, para quê este cântico? São estúpidos? (Sim.) Não se sabem comportar? (Não.) Não conseguem ver o jogo que está a decorrer à vossa frente? (Não.) E os ocasionais "É penalty!" quando há uma falta EM QUALQUER PARTE DO CAMPO. Hashtag #fucklogic repetida mil vezes na minha cabeça.

 

É isto a que eu me refiro quando digo que falta cultura futebolística em Portugal. Existem os adeptos de futebol - aqueles que gostam de ver um jogo, de o jogar, até, e de estar verdadeiramente informados sobre o desporto - e os "adeptos" de futebol - os que, antes da vitória da sua equipa, querem a derrota de todas as outras, que preferem armar confusão a destrufar de um jogo de futebol,

 

Senhores da FPF: Tanto trabalho bom que fizeram nos últimos anos, em que o futebol feminino tem ganho expressão no nosso país (pouco a pouco, mas a Taça de Portugal já é transmitida em directo na RTP2!), e dão este tiro no pé. Criaram um evento que menorizou (tanto que tornou praticamente insignificante) a realização de uma outra final europeia no nosso país. Menor que a Champions League, é verdade. Mas na mesma uma final europeia. Não só menorizou essa final (e, por consequência, a percepção nacional dessa mesma competição) como provocou uma má experiência (no final, a obrigar-me a levantar o rabo da cadeira por causa de um evento que, para todos os efeitos, era completamente secundário) a vários espectadores no final do jogo. Isto resolvia-se se não tivessem colado o concerto para vender mais bilhetes para o jogo, porque as pessoas compravam bilhetes mas estavam-se pouco marimbando para a bola. Era fácil: Bastava realizarem o concerto após o jogo, promoverem-no como sendo após o jogo, e dizer às pessoas que queriam ver o concerto para virem APÓS o jogo. Deixava as bancadas mais vazias? De corpos, sim. De cabeças interessadas em ver um jogo de futebol, não. E se na Federação vivem o futebol (supostamente, claro), deviam dar mais importância às pessoas que querem ver um jogo. Assim não promovem nada. Até correm o risco de descredibilizar a modalidade.

 

No final? Ficam o bilhete e o cachecol, para a colecção (um dia falarei disto). Se bem que ainda vou tentar arranjar um oficial. E o programa. Também quero um.

 

 

(Sim, o título é claramente enganador.)

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publicado às 09:30





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